Domingo, Julho 24, 2005

Quinta do Conventinho

Quinta-feira, Julho 21, 2005

Um fio de cabelo

No romance "Terra Sonâmbula", do moçambicano Mia Couto, há uma voz espectral, sibilina. Muindinga, menino órfão com nome e pai emprestados, que nada sabe sobre as suas origens, incorpora essa voz. Nesse gesto, através da estória que essa voz conta, Muindinga começa a (re)inventar-se, preenchendo o vazio do seu passado. Confunde-se nos lugares que ela evoca, inscreve no seu corpo desejante a memória de outros corpos cercando o seu. Ao princípio, Muindinga acredita que esse passado pode mesmo ser o seu e o da sua família. Mas pouco importa saber se é realmente assim. O que conta é que ele revive através desse passado. Se mergulha nele é para que, fortalecido, se aguente melhor à tona de água. Na verdade, é o presente e não o passado que aquela voz lhe oferece – e esse, ele pode agarrá-lo, materializando-o, na mão do velho Tuahir, seu pai emprestado, que o conduz ao longo da estrada devastada pela guerra.
Na busca desse menino moçambicano reconhece-se facilmentente uma necessidade universal: essa de nos situarmos no mundo, desenhando-lhe as fronteiras, conhecendo e experimentando os seus pontos de fuga. Parte do que esse mundo é está já para trás, nas nossas costas. Precisamos de inventários, de cronologias, de séries de objectos e de ruínas que sedimentem a nossa ideia de continuidade, de radicação extensiva no tempo e de pertença – a um lugar, a um grupo, a um modo de vida...
Mas o passado é um constructo; um país que forjamos para nós próprios, à exacta medida dos nossos sonhos e desejos, mas também das nossas frustrações e atavismos. Molda-se em função da nossa identidade presente, e da forma como nos projectamos no futuro. E, por isso, dir-se-á melhor se enunciado no plural: passados e não passado. Os elementos que seleccionamos são os que melhor simbolizam essa identidade, os que melhor falam por ela. Devemos sublinhar que transportamos esses elementos connosco, que os vamos inventando dentro de nós à medida que nos afastamos deles? Que a materialidade desses elementos, quando a evocamos, é muitas vezes imaginada, irreal?
It is vain to dream of a wildness distant from ourselvs. There is none such.
It is the bog in our brains and bowels, the primitive vigor of Nature in us, that inspires that dream.
I shall never find in the wilds of Labrador any greater wildness than in some recess of Concord, i.e. than I import into it.
(Thoreau)

Entre os nossos paraísos idílicos e as imagens construídas deles vai uma linha de desfocagens e porosidades crescentes. O jogo de espelhos entre uns e outros é, normalmente, frustrante: os objectos que vimos, cuidámos, guardámos (como feixes que nos guiam até nós de sentimentos) são já outros, integralmente nossos. Fizeram o seu caminho, transformaram-se e transformáram-nos. O fio que os liga ao passado vivido faz agora desvios abruptos de trajectória, perdeu toda a linearidade.
No entanto, reconforta-me a existência desses objectos. Lembro-me agora de um fio de cabelo teu, guardado no meu caderno

Quarta-feira, Julho 20, 2005

As tuas mãos

Com as mãos desenhando espirais na areia a ligarem as casas onde dentro há âmbar e seixos rolados.
Por fora de tudo, o som cavo do vento...

Domingo, Julho 17, 2005

A tua boca














As imagens
boca-a-boca
a desencadearem fogos rápidos nos espelhos

As palavras
salvíficas dementes

Em casa
alguém riscava fósforos uns atrás dos outros
inflamando os astros

Sábado, Julho 16, 2005

Pedra

Uma pedra; duas metades.
Uma folha de palma a abrir caminho sobre o meu lado esquerdo

Sexta-feira, Julho 15, 2005

Lavoura Arcaica

"Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo (...)".

Arranca assim, a dizer ao que vem, "Lavoura Arcaica", do brasileiro Raduan Nassar. É um livro seminal, saturado pela volúpia negra de um corpo em incestuosa inversão da parábola do filho pródigo. Cosmogonia das entranhas! Blasfema! Abençoada!

Mamas Renascentistas

"Você tem umas mamas do caraças! Se estivessemos na Renascença punham essas mamas no Louvre!"

(Diálogo do filme português O Meu Sósia e Eu)

Quinta-feira, Julho 14, 2005

Com Char na cabeça II


"Já não se lembra; quem ao certo o amou e de longe o ilumina para que não caia?"

Sábado, Julho 09, 2005

O teu rosto

O teu rosto acende-se com o fulgor repentino de uma vela, bruxeleando no escuro. Há nele uma espécie de irradiação, uma evidência lânguida do fluir da natureza. É essa a sua beleza: o instante de luz e de carne, o instante pleno de presságios em que tudo se dissolve

Sexta-feira, Julho 08, 2005

Uma criatura de luxo

Sexta-feira passada andava tudo louco com o prémio do Euromilhões. Noite fora, imaginando a benção, só se pensava no que fazer com 14 milhões de contos.

Para quem, como eu, é perfeitamente incapaz de processar tantos zeros, a coisa só é concebível no domínio da pura excentricidade. Queria uma passadeira de ouro a nascer de mim e a desenrolar-se sob os meus passos!

Quinta-feira, Julho 07, 2005

Lua laranja entrando pela cozinha

Quarta-feira, Julho 06, 2005

Com Char na cabeça

Algo haveria de erguer-se deste poço de lama e de estrelas!

Segunda-feira, Julho 04, 2005

Arrastões

Ao que parece o arrastão de Carcavelos não existiu. A natureza do acontecimento e o número dos implicados foi uma fabricação dos media. Ora, como os desmentidos, quando os houve, se ficaram por notas de rodapé, na memória colectiva o que fica é um não-acontecimento.
Para grandes franjas da população, o medo mais do que socialmente experienciado é hoje, em grande medida, o produto de uma mediação acrítica, imbecil, da generalidade dos meios de comunicação social. E é um medo encostado a velhos fantasmas. A radicalidade do não-acontecimento faz figura de caos à espreita - não espanta que quem saiba do mundo apenas pelos media, e sobretudo pelas televisões, espere encontar em cada esquina um pedófilo, um agressor, ou uma multidão de 500 putos pretos acoitados na Betesga para tomar de assalto o Rossio. E pede com urgência uma explicação. Normalmente uma explicação que reafirme a sociedade nos suas certezas mais selvagens: o território, o sangue, a cor da pele, o fanatismo, o ódio... Neste caso de Carcavelos, o racismo e a xenofobia. Esquece-se que os malfeitores só têm uma pele: a do xadrez que merecem.

Estamos a precisar de um novo Iluminismo! Uma hipótese: na gala comemorativa dos 30 anos da independência de Cabo Verde, o embaixador daquele país em Portugal propôs brindar os portugueses presentes com um arrastão...de amor. A noite e os artistas, valha a verdade, nem sempre estiveram à altura do propósito. Mas houve um momento-chave. Quando Mayra Andrade nos tons quentes da morna cantou "Você invadi nha coraçon". É isso: na relação com o Outro só nos deveríamos permitir um tipo de totalitarismo: invadir o coração...

Sábado, Julho 02, 2005

Visita à Quinta da Regaleira



Palácio













Gruta do Labirinto













Poço Imperfeito