Quinta-feira, Junho 30, 2005

I'm trying to break your heart

Hoje fico-me pelos Wilco numa canção de Yankee Hotel Foxtrot:

"I always thought that if I held you tightly

you would allways love me like you did that turn"

Tróia I


Regresso ao mar da minha infância, esse mar de uma planura só cortada pela ondulação de uma ocasional traineira a passar ao largo.
Fico por momentos sentado à borda d'água. Recordo com prazer os Verões longos; as manhãs cobertas de uma neblina fria, quando ia para o areal apanhar canivetes; as tardes infindáveis a jogar à bola nos relvados entre os blocos de apartamentos - com esse cheiro ainda hoje tão presente em mim, um cheiro que enchia o ar, cheiro a relva acabada de aparar.
Recordo os dias felizes em que a minha certeza de estar no mundo se deixava guiar, encaixando na perfeição, pela mão forte do meu pai - nascia dela...

Quarta-feira, Junho 29, 2005

Tróia


Terça-feira, Junho 28, 2005

Guts

Quando se espera tanto tempo por uma coisa, que finalmente chega, a verdade é que é grande a probabilidade de dentro de nós já se ter iniciado o caminho para nos libertarmos dela.
Talvez o nojo seja suficiente para fazer estalar o verniz desta mancha grotesca de medo com que me fui cosendo por dentro...
Não te Mexas, Morre e Ressuscita!

Domingo, Junho 26, 2005

Bouça


bouça
Originally uploaded by djamilia.
Haveria de ser assim: os corpos ao sol deslizando indolentemente para a água; o fim desta fome seca, desta luta em Nós; a paz servida numa imagem de postal com aroma a figos maduros...

Segunda-feira, Junho 20, 2005

Elvas












"Terras pobres e tristes! Tão tristes que têm alma!"

(António Machado)

Avó


008_8
Originally uploaded by djamilia.


Há mais de um ano, já! A morte avançando no teu corpo! No teu rosto vivo, balbuciante! Na tua voz sumida que me diz repetidamente, junto ao ouvido: "Tenho a boca seca!", sem ainda me teres reconhecido! No teu braço descoberto, imóvel, tão inchado e sem cor!
Gostaria de te ter dado de beber!

Pêssegos


Pe��ssegos
Originally uploaded by djamilia.




'A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.'

(Herberto Hélder)

Juromenha


Juromenha
Originally uploaded by djamilia.
Fortaleza sobranceira ao Guadiana, ali para os lados de Elvas. A planta actual é, genericamente, a seiscentista, do tempo das Guerras da Restauração, embora a ocupação do local remonte pelo menos ao século IX.
No início do século XX, a peste bubónica ceifou grande parte da população. Os sobreviventes instalaram-se nos arrabaldes, tornando-se o seu despovoamento irreversível. Hoje goza de protecção legal - é um Imóvel de Interesse Público afecto à Junta de Freguesia local - mas o seu estado de degradação é evidente.
No sábado, à sombra da muralha virada a nascente, dois velhos faziam rodar entre si uns binóculos. Falavam de alguém que se banhava, ali em baixo, nas águas de um Guadiana renascido do lago de Alqueva. Fiquei o tempo suficiente para ver outro chegar e rapidamente entrar na conversa.
Ao acto de espiar quem espia aplicar-se-á o dito sobre ladrão que rouba ladrão?

Fonte


Fonte
Originally uploaded by djamilia.










Fumando um cigarro e espantando as pombas

Segunda-feira, Junho 13, 2005

Eugénio de Andrade

Atravessou o século da crise do Sentido, do sujeito pulverizado, feito em cacos - à imagem do incessante questionamento becketiano: "Agora quem?Agora onde?Agora quando"- como um cavaleiro galante, cheio de uma impertinência serrana polida pelos salões portuenses.
Atravessou tudo isso como se tudo permanecesse sólido e evidente em si mesmo; como se a escrita fosse um acto de transparência a uni-lo ao mundo. Daí o seu lirismo. Nesse campo, a sua obra só tem paralelo no século XX português na de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Coração Habitado
-
Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.
-
Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.
-
Alguns pensam que são as mãos de deus,
- eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.
-
Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.
-
(do livro Até Amanhã)

Quarta-feira, Junho 08, 2005

esse poder que me desfoca...

"Mas os olhos dos maus esgotar-se-ão de procurar: falter-lhes-á todo o refúgio, e a sua esperança será exalar o último suspiro". Haverá poucas sentenças tão terríficas como esta do Antigo Testamento - servido na versão portuguesa dos frades Capuchinhos.
Quem assim fala não é o deus do dilúvio ou das sete pragas do Egipto, esse que nos inebria com o espectáculo do poder. É o deus que pede o inconcebível: Abraão louco de amor pronto para o sacrifício do próprio filho. O deus que joga aos dados pela cabeça das suas pequenas criaturas: Job alvo de todas as provações até à reafirmação da fé - mas inventando de permeio um primeiro humanismo. Um deus cortante, sem pressa, com a frieza de uma lâmina.
O verdadeiro poder serve-se assim: frio! É um privilégio de quem pode esperar...pelo esgotamento, pelo delírio, pelo crime. Imprime na carne as marcas da ansiedade e da angústia: a interrogação contínua, a busca sem fim...
Os meus olhos esgotar-se-ão de procurar!...

Lastro

Não é o silêncio que faz medo, é o teu rosto nele, ardendo num fogo lento e tão insuportavelmente belo: conquistando-me sob a pele

Sábado, Junho 04, 2005

34 anos

34 anos. Muitas pessoas foram partindo. Outras foram chegando, raras, iluminadas. Deixaram-se ficar. Tornaram-se o melhor de mim. Celebro-vos hoje