Segunda-feira, Abril 14, 2008

O Pé de Vento encontrou novo abrigo. AQUI

Quinta-feira, Março 27, 2008

Uma escola para cada um

Nos séculos XVII e XVIII, o movimento iluminista fez o Futuro descer do céu para a terra. Até aí, o caminho da humanidade era para Deus: a vida era uma etapa para atingir uma outra, mais verdadeira e redentora, debruada a leite e mel. O pensamento ocidental guiava-se, mais ou menos atavicamente, pela máxima de Santo Agostinho: “Somos cá em baixo viajantes que suspiram pela morte.”
Sob o impulso dos avanços científicos de seiscentos, os iluministas cunham um ideal de humanidade que se realiza na história, que é agora um tempo aberto. Aos seus olhos, a vertigem já não vinha das alturas, mas, sim, das maravilhas do progresso. Foram eles que rasgando um horizonte de perfectibilidade humana, fizeram da educação um estandarte. “Sapere Aude!” – é a expressão lançada por Kant. Só através da educação o Homem poderia sair da menoridade (Kant) e superar o obscurantismo (Voltaire), realizando plenamente as suas potencialidades. Era na Razão que os iluministas pensavam, a Deusa-Razão – que o foi na França revolucionária de finais do século XVIII. O homem emancipado, para retomar a expressão de Kant, seria aquele capaz de fazer uso da sua razão. Daí – da necessidade de a cultivar e desenvolver – a importância atribuída à educação.
Não era, no entanto, no homem enquanto sujeito individual que os iluministas pensavam. Dizer homem era dizer humanidade. Era o todo, e não as partes, o que estava no centro do seu pensamento. Ainda assim, essa abstracção em movimento tinha, à cabeça, quem a representasse, uma classe social em plena afirmação: a elite burguesa, interessada em substituir o privilégio do sangue pelo privilégio do mérito. Nas suas mãos, a educação tornar-se-ia uma arma de afirmação social, conferidora de estatuto e garante de respeitabilidade.
Um privilégio, pois. Ao alcance de poucos. Rui Ramos traça-nos este quadro para o final do século XIX e princípio do século XX, em Portugal: “A educação tornara-se a marca essencial de pertença a uma classe respeitável – a daqueles que podiam deixar os filhos adiar o momento de se empregarem. Era o mesmo que ter criados, sem dúvida a melhor forma de distinguir classes sociais".
A democratização e a massificação do ensino são, em larga medida, na Europa ocidental, produtos do Estado social, ou Estado-Previdência, do após-guerra. E, em Portugal, uma das conquistas do 25 de Abril de 1974. Os números são reveladores: a taxa de escolarização das crianças com 14 anos era em 1972/73 de 37,7%, enquanto que em 1989/90 apresentava um mínimo de 57%, no distrito de Braga, e um máximo de 91%, no distrito de Portalegre.
São maioritariamente as crianças oriundas dos estratos sociais mais baixos, que chegados ao sistema para cumprirem uma escolaridade obrigatória de nove anos (a partir de 1986) confrontam a escola em crise de autoridade – em transição de uma autoridade incontestada, cujas principais marcas eram, nas salas de aula, o estrado alto, que entronizava, separando-o dos restantes, o detentor do saber, o professor, e a presença sancionatória dos símbolos do poder político e religioso; para uma espécie de autoridade negociada, em resultado da aplicação dos princípios do jogo democrático – com novos desafios: diversidade de públicos, com novos comportamentos e interesses, e com significativas diferenças de grau cultural de partida.
A acção conjugada daqueles factores – crise de autoridade e novos desafios – cria as condições para uma crise de identidade da escola. Concebida como veículo de transmissão cultural, com a finalidade de assegurar a integração das novas gerações na sociedade e, por via disso, salvaguardar a continuidade da mesma, a escola aparece hoje como que envergonhada desse papel que lhe incumbe. Perdeu solidez. Parece titubear. Concebida para garantir um ensino igual para todos, dispõe de recursos humanos e materiais, e de uma organização pedagógica em conformidade. Supõe que o mesmo ponto de partida é partilhado por todos. Ironia das ironias, descobre que um ensino colectivo e igual para todos – um ideal democrático, sublinhe-se – não assegura, afinal, uma verdadeira igualdade de oportunidades e pode mesmo limitar-se a reproduzir as desigualdades sociais, económicas e culturais.
Por outro lado, a escola ressente-se do questionamento incessante dos pressupostos sociais da sua acção e do seu saber. A esse nível, é particularmente significativo um certo discurso da pós-modernidade em torno de questões como o poder e a hegemonia cultural. Expondo e criticando o carácter hegemónico da transmissão cultural realizada pelos grupos maioritários, ou pelas elites – e, não por acaso, a mera invocação destas parece não poder fazer-se, hoje, sem que um rubor de vergonha nos invada o rosto – abriu caminho para um relativismo anódino que tudo faz equivaler: o que a criança já sabe ao que a criança ainda não sabe; o senso comum ao saber conceptual; eventualmente, todos os valores e os comportamentos, tomando-os como igualmente aceitáveis. Em consequência, o próprio princípio da avaliação – e não apenas a forma como é concretizado – como parte integrante do processo educativo formal, parece ser posto em causa, porquanto pesa sobre ele o ónus da violência simbólica, da punição. E mesmo o currículo, enquanto instrumento orientador e regulador do processo educativo formal, aparece como uma estranguladora camisa-de-forças. A este respeito, é ler o que dizem Cortesão e Stoer, sociólogos da educação: a escola “geria (e gere) penalizando, através da avaliação, a dificuldade ou a incapacidade de atingir os níveis de aprendizagem impostos, bem como o desinteresse pelo que o currículo oficial considera importante adquirir. Em consequência, foram-se agravando as já conhecidas situações de insucesso, bem como o abandono e, portanto, mesmo o não cumprimento da escolaridade obrigatória” - a escola enquanto "comedora" de criancinhas, portanto.
No limite, este discurso sobre a escola e a educação formal parece apontar para um novo horizonte: a escola para cada um. Uma escola como uma espécie de comunidade maiêutica onde, imunes a qualquer constrangimento social, todas as crianças dos seis aos quinze anos pudessem traçar os seus próprios percursos educativos, desenvolvendo áreas do seu interesse – fossem elas as profecias do Bandarra, o mundo asséptico, bem vestido e sem cérebro dos “Morangos Com Açúcar” ou os cestos divinatórios da Zâmbia – e escolhendo os mestres - a internet, claro, congrua que dispensa do pensamento - que melhor as orientassem nesse percurso de autoconhecimento. Um coelho branco anda por aqui a saltar à espera da sua Alice...

Exige-se da escola que compense a sociedade. Que seja um laboratório para amanhãs que cantam. (Tontos que nunca na vida enfrentaram uma chusma de criaturas imbecilizadas dentro de uma sala de aula!) E para isso nada como endoutriná-los de pequeninos nos altos valores da democracia. Serve-se-lhes, para o efeito, uma área curricular de Formação Cívica. Boas intenções, infelizmente armadilhadas a cada instante por um discurso educativo que, nos últimos trinta anos, mais não fez do que propalar equívocos, confundindo liberdade com permissividade, democracia com laxismo, abertura à diferença e ao novo com esquizofrenia. O resultado, ou muito me engano, ou ficou nos antípodas das melhores intenções, com a complexidade a ceder lugar ao facilitismo, a ludicidade a ganhar terreno ao esforço, os valores a diluírem-se num caldo politicamente correcto de relativismo cultural...

A educação já não salva do mundo. Tornou-se parte integrante dele, tão analfabeta e cobarde como tudo o resto nesta piolheira - razão tinha aquele, morto há cem anos! - sempre parolamente assoberbada pelo novo, pelo moderno, sem nunca verdadeiramente o incorporar.
O tempo fechou-se sobre esta voragem de futuro, que mais não é senão um presente contínuo sem esperança, atávico, vil.

Segunda-feira, Março 03, 2008


"É simples: quando acordo aterrorizado, vendo as grandes sombras incompreensíveis erguerem-se no meio do quarto, quando a pequena luz se faz na ponta dos dedos, e toda a imensa melancolia do mundo parece subir do sangue com a sua voz obscura..."

Herberto Helder, Os Passos em Volta

Terça-feira, Fevereiro 05, 2008


Disse que és alto
alto
branco e despovoado

Mário Cesariny

Domingo, Janeiro 20, 2008

Sábado, Janeiro 12, 2008


Amoreira, 2008

Quarta-feira, Janeiro 09, 2008


Monte Clérigo, 2008

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008


Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor.

(...)

Somos gente pura: os mais novos não sabem o que é a promiscuidade, a minha rapariga se vir a palavra escrita deve achá-la muito comprida e custosa de soletrar: pro-mis-cu-i-da-de (pelo método João de Deus, em tipos normandos e cinzentos às risquinhas, até faz mal à vista!). A promiscuidade: eu gosto. Porque me cheira a calor humano, me sobe em gosto de carne à boca, rne penetra e tranquiliza, me lembra - e por que não ?! - coisas muito importantes (para mim, libertino se o permitem) como mamas, barrigas, pele, virilhas, axilas, umbigos como conchas, orelhas e seu tenro trincar, suor, óleos do corpo, trepidações de bicharada. E a confusão dos corpos, quando se devoram presos pelos sexos e as bocas. E as mãos, que agarram e as pernas, que enlaçam. Máquinas que nós somos, máquinas quase perfeitas a bem dizer maravilhosas, inda que frágeis, como não admirar as nossas peças, molas e válvulas e veias, todas elas animadas por um sopro que lhes parece alheio mas sai do seu próprio movimento, do arfar, dos uivos do animal, do desespero do anjo caído. E a par disso que é o trivial, que é o que cada um, tosco ou aleijado tem para dar e trocar, fatalidades, na sua mísera ou portentosa condição de bicho, a beleza, que é a surpresa, a harmonia das formas, que é a excepção e a inteligência, que é a reminiscência dos deuses. Ao lado do bicho, natural e informe, a estátua - onde a carne se afeiçoou em linhas puras, sabe-se lá porquê, por quem e para que fim (sim, o fim sabemos e é o que irmana todos na caveira desdentada horrível a rir-se muito da beleza e dos olhos que a gozavam, da estátua viva e das mãos que a percorriam demoradamente, enlevadas). A curva flutuante de um seio de donzela, a provocação que é a anca do efebo ou da ninfa, tão parecidas que se confundem; a amplidão do olhar e os seus mistérios, esquivas e trocadilhos - íntima largueza do reino da alma que jamais encontrarás seu fundo, e a cor alacre arrebatada duma risada; os passos, o cetim da pele, o emaranhado dos pêlos do púbis, e a alegria loira duma cabeleira solta, desmanchada nos abraços, saindo triunfal duma cama semidesfeita. A persuasão da fala, a fenda estreita que é a porta do paraíso e as outras mil maneiras ,de ver e gostar de ver um corpo ser nosso, subjugado por uma técnica ou o seu próprio desejo dissoluto; e tudo assoprado por dentro, tudo recheado de novas grutas ainda por explorar e que também jamais as conhecerás ou iluminarás todas, se elas a si mesmas se ignoram. Tudo cativado por uma divindade que é o todo, que é o Corpo, em risos e gritos, balbuceios de orgasmo e ranger de dentes; e a solidão duma lágrima lenta que desce a face no silêncio e na amargura; e o resfolegar do moribundo que já nada quer dos homens e com os homens, mas ostenta ainda na severidade da máscara, no desdém da boca desgarrada, uma altaneira nobreza; e a ferida do teu sexo aberta como uma nova última esperança de recomeçar tudo desde o princípio como se fora a primeira vez a fuga para o sono e o sonho. Nem eu me atrevia a falar-vos disto, senhores; nem eu nunca me atreveria a repetir coisas tão velhas, se não as visse serem atiradas para trás das costas, como se a enterrar em vida o corpo em cálculos e tristura os homens fossem mais livres e mais humanos. Ódio ao corpo, andam esses a dizer há dois mil anos, como se neste curto lapso de tempo da história do homem só devesse haver fantasmas descarnados. Ódio ao corpo, o teu e o meu, disfarçado em tarefas vis e loas absurdas, cobardias pequeninas. Nada disso é gente e eu gosto de estar com gente (falo de corpos), um enchimento de gente à roda, compacta, onde recebemos e damos, estamos e lutamos, sofremos em comum e gozamos. Onde tudo de nós é ampliado, revigorado, e medido pelo colectivo, pelos outros - espelho e limite, cadeia e espaço imenso, liberdade e nossa conquista.
(...)

Cá em casa a nossa cama é a nossa liberdade imediata. Tem os nomes que quiserem. É a cama do pai de família, austero e mandão, ou do dorminhoco pesado quando regressa embriagado para casa. É a cama do libertino. É o leito (suponhamos!) Luís-Qualquer-Coisa, XV ou XVI, do milionário, porque nela somos reis e milionários de ternura e de abraços, de palavras ciciadas; e é o catre sem lençóis, fracas mantas, e mau cheiro, do maltês que não sabe para onde o destino o manda (e somos isto, e que de longes terras viemos! quantos naufrágios! quanta coisa fomos largando para facilitar a marcha até aqui!), a enxerga do pedinte (e nós o somos também: porque temos falta de tudo e porque acordamos de manhã sem uma bucha de pão para dar às crianças e sem saber ainda onde o ir buscar). Podia ser (dava para) um bom título de uma comédia picante, bulevardesca; UMA CAMA PARA CINCO; idem para um filme neo-realista, onde nem cama houvesse, só umas palhas podres e mijadas, com gaibéus ensonados, embrutecidos do calor e do vinho, fedor de pés, talvez um harmónio desafiando as cigarras e os grilos na cálida noite da planície alentejana. Uma cama para cinco, em herança, constituía um demorado caso de partilhas. Nós dormimos. Às vezes, muitas vezes, beijos e abraços.

Luiz Pacheco, Comunidade

Terça-feira, Janeiro 01, 2008



Segunda-feira, Dezembro 24, 2007



Lagoa de Santo André, Dezembro de 2007

Sábado, Dezembro 22, 2007

Happy sunny days

Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

muito para além do horizonte
a sombra triste dos teus olhos vai colando as paisagens

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Encostavas a boca à curva sôfrega do meu peito
Dizias que te enternecia essa proximidade ao coração das coisas ainda sem nome

The boy with the thorn in his side

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

A tua voz imaginada vai abrindo, um a um, os lugares da sede, no meu peito